Da fotografia
escrito por eu
Nunca se tira apenas uma fotografia. É essa a beleza da coisa. Cada foto são muitas mil que ficam a pairar desde o momento em que vimos algo até ao dia em que publicamos um primeiro resultado. Tantas que ficam pelo caminho, tantas que apetece voltar atrás.
O prazer da fotografia não se esgota no momento de pegar na camera e andar com ela por aí a queimar kapas em cartões de memória. O maior prazer está sempre para vir, qual sessão de sexo tântrico, depois de descarregadas e vistas em grande, depois de irmos rejeitando ou fazendo primeiras abordagens, depois de nos apaixonarmos por um frame, um simples frame e ficarmos para aqui a pensar na vida.
Qualquer dia volto a pendurar a luz vermelha do laboratório, encho as tinas de liquidos e fico aqui fechado só para fazer de conta que voltei ao laboratório. Só para poder ficar fechado envolto nestes frames que agora não se penduram em molas de roupa nem escorrem água.
É seguramente uma coisa religiosa, no bom sentido, este assistir ao nascimento de cada fotografia. Por isso não se apagam fotos digitais pela mesma razão que ninguem rasga negativos. Mais tarde ou mais cedo havemos de lá voltar e descubrir algo. Aprendi isto com um grande amigo, também ele amante da coisa.
Este desvario todo para dizer que finalmente comprei a máquina nova e agora já não tenho desculpa para não me voltar a dedicar a este belo prazer.
Mas qualquer dia volto ao filme, porque esse é o prazer maior.
Entretanto vão espreitando o sal de prata.

Bocas
gosto! também já não apago fotografias… nunca se sabe… mesmo desfocadas, podemos nunca mais voltar ali, nunca mais ter um dia assim, uma luz, um sentido qualquer! (…) pendura lá a luz vermelha, que isso do “qualquer dia” são só coisas bonitas que se perdem!